Todos estão comentando. Os sussurros ultrapassaram as montanhas
que cercam o divino e calmo vilarejo. A repercussão do novo
acontecimento tirou a morbidez da civilização. A população
encontra-se boquiaberta e ludibriada sem entender os reais motivos.
Pequena por natureza, a vila é composta por humildes camponeses,
vidas pacatas que ganham o pão em imensos campos verdes,
abstidos de guerras, de conflitos, de assassinatos e de grandes
problemas. Um lugar em que as pessoas desconhecem a inveja, a
arrogância, a corrupção, a maldade e a ganância. Apenas as imensas
cordilheiras circundam o vilarejo e protegem os camponeses de todo
mal. As crianças são criadas soltas, livres, brincando entre as matas
e rios que cortam uma terra maravilhosa abençoada por Deus.
Mas um monstruoso empreendimento, inovador, moderno e visionário
criado pela alta cúpula oriunda de outras bandas, já está em plena
ascensão e acabará com a tranqüilidade de todos que moram na
região. O medo e a angústia tomam conta de cada humilde família que
desconhece o futuro e os impactos do novo projeto arquitetônico.
Impossível acreditar, um lugar tão tranqüilo, longe da invasão dos
bárbaros, dos vikings, da confusão do dia-a-dia dos grandes reinos,
da exploração da nobreza, dos impostos da coroa e de tantos outros
problemas vivenciados pelos grandes impérios agora vai receber
uma obra que isolará as duas classes econômicas (camponeses e
falsos nobres), fazendo fomentar os piores sentimentos humanos, até
então desconhecidos pelos nativos daquele lugar. Tudo para
“proteger” as famílias imperiais.
Tornou-se incontrolável a apreensão e é inevitável não comentar a
grande barbaridade que irá repartir o povoado. Os nativos comentam
entre si que os impactos da construção podem ser piores que a peste
negra, talvez a destruição de toda a humanidade. Ela mudará toda
estrutura social do vilarejo, além do estilo de vida que não será mais o
mesmo. Os camponeses farão de tudo para conquistarem um lugar no
requisitado espaço construído, onde nascerá a inveja, a avareza, a
maldade e o ódio que alimentará os corações dos excluídos, daqueles
que não poderão viver dentro da redoma de cimento.
Querem tirar a liberdade deles, querem isolar os que podem dos que
não podem, dos que tem dinheiro dos que não tem. Muro de Berlim,
muro entre a Palestina e Israel, duas Coréias, muro entre Paquistão e
Índia, agora mais um muro aqui. Turistas visitam a vila devido à
liberdade, a não existência de furtos, de neuroses, de concreto, de
fumaça, de indústrias entre outros sentimentos e invenções presentes
nos reinos metropolitanos. Lá é preciso viver atrás das grades, na vila
não. Os camponeses podem entrar nas casas dos vizinhos sem bater
nas portas, o quintal de um é o quintal do outro, pequenos barracos
que traduzem o espírito de união e irmandade, agora serão separados
por uma cerca de concreto. Um feudo particular.
Os comentários são demasiados e dizem que tudo isso é obra da
burguesia que quer a todo custo virar nobreza e deseja tomar o
vilarejo, expulsando assim, os camponeses para cercar uma vasta
porção de terra com altos muros impedindo uma manifestação em
massa e uma possível invasão. Outros dizem que é por pura vaidade.
Opiniões diversas murmuram por cada canto e fazem nascer teorias
sobre o surgimento de um antigo sistema que dominou a Europa há
muitos séculos atrás e agora será ressuscitado.
O clero e a nobreza aprovam com afeição o projeto, convincentes de
que está mais do que na hora de “modernizar” o vilarejo. “O futuro
caminha com passos largos e será uma graça divina ter algo
grandioso, forte, magistral e imponente. Precisamos de proteção” -
diz um membro do clero. E completa dizendo que nas metrópoles
esse sistema é muito usado, um luxo para quem deseja ter
privacidade e segurança.
A majestade quer um feudo. Querem as atenções para eles, querem
grandes muros e soldados a escolta, carruagens blindadas. Falsos
nobres, burgueses que saíram de baixo e querem viver por cima,
comendo frango e divertindo-se com os bobos da corte.
Querem isolar o lado pobre do lado da riqueza. Estão com medo das
invasões dos bárbaros? Alguns chamam de condomínio fechado,
mas você há de concordar que isso é um feudo. Proteção própria,
linguajar próprio, praça de lazer própria, amigos próprios e um rei
para comandar. Você tem outro nome para isso? F-E-U-D-O.
Querem trazer a paranóia das capitais para cá, querem copiar algo
que é uma vergonha para o país. Se o governo não lhes dão proteção,
temos que pagar uma particular. Querem criar novos problemas,
fazer o sossego da vila entrar em um tremendo inferno astral. Atrair a
criminalidade, os olhares dos marginais que tentarão descobrir a
qualquer custo o que existe por trás dos muros.
É chique morar em um feudo. Proteção, status, gabarito...
O que posso dizer?
A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume.
Ícaro Vieira